Quase todo escritório de arquitetura ou engenharia sabe exatamente quanto faturou em cada contrato. Quase nenhum sabe quanto cada contrato custou. A diferença entre esses dois números é a rentabilidade por contrato — e ela não aparece em lugar nenhum, porque o custo principal de um escritório de projetos é tempo de gente, e tempo de gente não emite nota.
A conta existe e é conhecida. A própria Tabela de Honorários de Serviços de Arquitetura e Urbanismo, do CAU/BR com o CEAU, calcula o preço a partir da fórmula PV = (ET × K1) + (CE × K2) + (AT × K3) + (DD × K4), em que ET é o preço do custo direto estimado das horas da equipe técnica permanente e K1 é o multiplicador que incorpora encargos sociais, despesas indiretas, lucro e despesas legais. Ou seja: o padrão de referência do setor precifica projeto em horas. O que a maioria dos escritórios não faz é fechar o ciclo — estimar em horas na proposta e depois medir as horas que de fato foram gastas. Sem esse segundo passo, o escritório precifica com um método e apura resultado com outro. Neste texto eu mostro como medir isso sem virar exercício contábil. Declaro o escopo e o interesse: a Audatia é consultoria de tecnologia para operação e lucra com esse trabalho de desenho — classificação contábil e apuração fiscal são temas do seu contador, não deste artigo.
Por que o resultado do mês não diz qual contrato pagou qual?
Porque o resultado do mês é uma soma, e soma esconde sinais opostos.
Um escritório com dez contratos ativos e resultado positivo pode ter três que sustentam o caixa, cinco que empatam e dois que consomem tempo de equipe sem cobrir o próprio custo. O agregado fica azul; a composição fica invisível. O sócio conclui que o modelo funciona quando, na prática, um número pequeno de contratos subsidia o restante.
O problema piora com o tempo. Sem visão por contrato, o escritório repete o que parece ter dado certo e fecha mais contratos do tipo que consome mais hora — porque foram os que entraram mais fácil. O resultado agregado vai se estreitando, e a explicação que sobra é genérica: “o mercado apertou”.
Há ainda um efeito de fluxo de caixa que confunde. Contrato de projeto costuma ter pagamento por etapa, com entrada. O dinheiro entra antes de o custo aparecer, porque o custo aparece como salário ao longo dos meses de desenvolvimento. Um mês pode fechar bem porque três entradas caíram juntas — e não porque os contratos são rentáveis.
Faturamento é um fato. Custo por contrato é uma alocação. Sem alocação, não há rentabilidade por contrato — há apenas uma média que ninguém consegue interpretar.
O que conta como custo de um contrato, e o que ninguém aloca?
Alguns custos são fáceis: aparecem numa nota, num boleto, num contrato de terceiro. Outros são tempo de pessoas que já estão na folha, e por isso passam despercebidos — já foram pagos de qualquer forma, então não parecem “custo do contrato”. O Roteiro de Preços do Sinaenco separa os dois grupos: custos diretos são os recursos gastos exclusivamente na execução do trabalho; custos indiretos, embora indispensáveis, não se vinculam diretamente a um trabalho específico e precisam ser rateados entre todos os contratos.
| Custos visíveis (o escritório já vê) | Custos que quase ninguém aloca ao contrato |
|---|---|
| Consultores externos e projetos complementares | Hora de sócio em reunião, revisão e decisão de projeto |
| Taxas de aprovação, ART/RRT, cópias e plotagens | Retrabalho de revisão após mudança de premissa do cliente |
| Deslocamento e visita técnica lançada como despesa | Reunião de alinhamento interno sobre um contrato específico |
| Serviços de apoio técnico (levantamento, sondagem, maquete) | Acompanhamento e reprotocolo em prefeitura |
| Software e licenças (rateados no escritório todo) | Atendimento fora do escopo por WhatsApp e telefone |
| Folha da equipe técnica (vista como custo fixo) | Espera: horas aguardando resposta ou aprovação do cliente |
A leitura prática dessa tabela é que a rentabilidade se decide na coluna da direita. Hora de sócio é o item mais caro do escritório e o menos registrado — normalmente porque o sócio é quem menos tem tempo de registrar. Retrabalho de revisão é o segundo: não aparece como uma linha grande em lugar nenhum, aparece diluído em duas semanas a mais de prancheta que ninguém contou. E o tempo de aprovação em órgão público merece um cuidado à parte: a espera em si não custa hora — o que custa hora é o acompanhamento, refazer o protocolo, responder exigência, remontar prancha para o critério do analista. Esse ciclo pode se repetir várias vezes num contrato e nenhuma vez em outro, e é justamente a variação que a média mensal apaga.
Como calcular o custo-hora sem virar exercício contábil?
O método é simples e público. O Sinaenco descreve o custo horário de um profissional como o salário mensal dividido pela quantidade média de horas trabalhadas pela empresa no mês. Essa é a base; sobre ela se aplicam os encargos e, se o escritório quiser chegar a preço e não só a custo, os multiplicadores de despesas indiretas, lucro e tributos — exatamente a lógica do K1 da tabela do CAU/BR.
Para medir rentabilidade por contrato, dois níveis já resolvem.
Nível 1 — custo direto de equipe. Salário mais encargos, dividido pelas horas úteis do mês. Serve para comparar contratos entre si. Responde: este contrato pagou as horas que consumiu?
Nível 2 — custo com rateio de estrutura. O mesmo custo-hora, acrescido do rateio de despesas indiretas. Responde: este contrato ajudou a pagar a estrutura?
Repare no padrão: comece pelo Nível 1, porque ele ranqueia contratos sem exigir nenhuma decisão de critério contábil. E não use três casas decimais — use faixas por perfil (sócio, coordenador, projetista pleno, estagiário). Um custo-hora aproximado por perfil, aplicado de forma consistente, produz comparação útil. Um custo-hora exato por pessoa, que ninguém mantém atualizado, não produz nada. Precisão que não se sustenta é pior que aproximação que se sustenta.
E se a minha equipe não quiser apontar hora?
É a objeção mais comum, e é legítima. Apontamento de horas tem histórico ruim: virou instrumento de vigilância em muitos lugares, consome tempo produtivo, e muitas vezes a equipe preenche sem receber nada em troca. Quem já foi cobrado por um timesheet que ninguém usava tem razão em resistir.
A resistência costuma cair quando três coisas mudam.
Primeira: reduzir o custo de apontar. Apontamento diário em blocos, não em minutos, com poucas categorias. Se preencher leva mais de um ou dois minutos por dia, a adesão cai e o dado apodrece.
Segunda: mudar o uso declarado. O apontamento serve para dimensionar contrato e negociar prazo com cliente, não para medir o rendimento individual de ninguém. Isso precisa ser dito de forma explícita e, principalmente, precisa ser verdade — um único uso do dado numa avaliação individual encerra a colaboração para sempre.
Terceira: devolver o resultado. Se o time aponta e nunca vê o número, o apontamento morre em seis semanas. Mostrar, no fechamento de uma etapa, quantas horas ela consumiu contra o previsto é o que sustenta o hábito.
E vale dizer o que não é necessário: você não precisa de timesheet perfeito para ter sinal útil. Precisa de atribuição consistente da maior parte das horas ao contrato certo. Um apontamento que cobre 80% das horas, feito da mesma forma todo mês, já ordena os contratos do mais para o menos rentável — e a ordem é a informação que muda decisão. Precisão de minuto não muda decisão nenhuma.
Por onde começar quando ninguém aponta hora hoje?
Comece por um recorte, não pelo escritório inteiro.
- Escolha de três a cinco contratos ativos, de tipos diferentes. Inclua um que todo mundo suspeita ser problemático.
- Defina de quatro a seis categorias de tempo por contrato: desenvolvimento, revisão e retrabalho, reunião com cliente, aprovação e órgão público, coordenação de complementares. Menos categorias, mais adesão.
- Inclua a hora de sócio desde o primeiro dia. É o custo-hora mais alto e o mais volátil entre contratos. Se ficar de fora, o exercício mede o barato e ignora o caro.
- Rode um ciclo que pegue mais de uma etapa. Um recorte curto demais pega só um trecho do projeto e engana.
- Feche a conta por contrato: honorário no período, menos custos diretos externos, menos horas apontadas multiplicadas pelo custo-hora do perfil.
- Compare os contratos entre si, não contra uma meta. Na primeira rodada, o dado é bruto demais para virar meta — serve para ordenar.
O objetivo da primeira rodada não é chegar ao número certo. É descobrir se a ordem dos contratos surpreende alguém. Se surpreender, o escritório vinha decidindo sem informação — e agora tem por onde continuar.
Por que contrato por m² ou por percentual da obra concentra o risco no escritório?
Porque o preço fica preso a uma variável que não é o custo. Área construída não muda quando o cliente pede a quarta versão da fachada. Custo estimado de obra não muda quando a prefeitura exige um novo estudo. As horas mudam; o honorário, não.
Isso não torna a modalidade errada — ela é reconhecida e usada. A própria tabela do CAU/BR traz o percentual sobre o custo de execução da obra como uma de duas modalidades básicas, mas condiciona a escolha ao grau de definição do escopo: a segunda modalidade, pela soma das despesas de produção, é a recomendada para serviços de escopo não claramente definido ou não passíveis de prévia e precisa quantificação. Traduzindo: quando o escopo é incerto, amarrar o preço à área ou ao custo da obra transfere para o escritório todo o risco das horas que o cliente vai gerar.
E o próprio documento é explícito sobre o seu alcance. Ele diz, na seção de condições básicas para a remuneração, que os parâmetros ali adotados objetivam sugerir honorários de referência e não têm a pretensão de substituir “a inarredável formação de preços”, porque num orçamento criterioso o BDI peculiar do serviço é ponderado em relação à conjuntura econômica, à capacidade de produção e à capacidade administrativa de cada empresa, entre outros fatores.
Leia a última parte com atenção: capacidade de produção e capacidade administrativa de cada empresa. A referência oficial do setor diz que o preço depende de características do seu escritório — e você só conhece a sua capacidade de produção se mediu quantas horas os seus contratos realmente consomem.
Como transformar “esse cliente dá trabalho” em número?
Todo escritório tem essa frase. Ela costuma estar certa e não serve para nada, porque não entra em negociação nem em decisão de portfólio. Ela vira número quando o tempo passa a ter dono. O exemplo abaixo é ilustrativo — os valores são hipotéticos e existem só para mostrar o mecanismo.
| Exemplo ilustrativo | Contrato A | Contrato B |
|---|---|---|
| Honorário contratado | R$ 120.000 | R$ 120.000 |
| Visão sem alocação de horas | “Dois contratos iguais” | “Dois contratos iguais” |
| Horas de equipe técnica apontadas | 620 h | 950 h |
| Horas de sócio apontadas | 40 h | 180 h |
| Ciclos de revisão após aprovação de etapa | 2 | 7 |
| Reprotocolos em órgão público | 1 | 4 |
| Custo direto externo | R$ 18.000 | R$ 22.000 |
| Custo de equipe (custo-hora ilustrativo por perfil) | R$ 62.000 | R$ 118.000 |
| Resultado após custos diretos | R$ 40.000 | – R$ 20.000 |
Sem alocação de horas, os dois contratos aparecem como a mesma linha de R$ 120.000 no faturamento. Com alocação, são coisas opostas. E note onde a diferença se formou: não no honorário, não nos complementares — nos ciclos de revisão e nas 140 horas adicionais de sócio. Esse é o formato que sustenta uma conversa comercial. “Você dá trabalho” é acusação; “este contrato teve sete ciclos de revisão contra dois do padrão, e quatro reprotocolos” é fato registrado, e leva a três caminhos: rever o preço na renovação, rever o processo de aprovação de etapa, ou aceitar conscientemente o contrato como estratégico. Qualquer um dos três é melhor do que decidir sem saber.
O que precisa estar registrado para a conversa de aditivo existir?
A conversa de escopo adicional é quase sempre perdida antes de começar — não por má-fé do cliente, mas por ausência de registro. Meses depois, o escritório afirma que houve mudança relevante e o cliente lembra de uma conversa por telefone. Sem documento, prevalece a versão de quem paga.
Quatro registros sustentam essa conversa:
- Escopo por etapa, com número de revisões incluídas. “Revisões ilimitadas até aprovação” é o mecanismo mais comum de erosão silenciosa de margem.
- Marco de aprovação formal de cada etapa, com data e responsável.
- Trilha das solicitações fora de escopo, com data, origem e horas consequentes. Não para cobrar tudo — para poder escolher o que cobrar.
- Horas consumidas por etapa contra o previsto. É o que converte “mudou bastante” em “esta etapa consumiu o dobro das horas previstas”.
Registro serve tanto para cobrar quanto para não cobrar. Um escritório que documenta e conscientemente absorve um extra está fazendo uma concessão comercial. Um escritório que não documenta está absorvendo sem saber.
Quando não vale a pena medir
Para ser justo com o próprio método: nem todo escritório precisa disso agora. Se você tem dois ou três contratos por vez, todos do mesmo tipo, e consegue dizer de cabeça quantas horas cada um consome, a planilha mental já é a alocação — formalizar acrescenta pouco. A medição passa a valer quando o número de contratos, a variação entre tipos ou o tamanho da equipe fazem a cabeça deixar de dar conta. Medir cedo demais é custo sem sinal; medir tarde demais é o “o mercado apertou” sem diagnóstico. O gatilho não é o tamanho do escritório — é o momento em que você para de conseguir responder “qual contrato me dá dinheiro?” sem chutar.
Perguntas frequentes
| Pergunta | Resposta |
|---|---|
| O que é rentabilidade por contrato num escritório de projetos? | A diferença entre o que cada contrato faturou e o que ele custou — sendo o custo principal o tempo de equipe, que não emite nota e por isso fica invisível. |
| Por que o resultado mensal não basta? | É uma soma. Contratos rentáveis e deficitários se anulam, e a composição some. |
| Qual é o custo principal de um contrato de projeto? | Tempo de gente. Como não emite nota, não aparece alocado por contrato. |
| Quais custos quase nunca são alocados? | Hora de sócio, retrabalho de revisão, reunião de alinhamento e acompanhamento de aprovação em órgão público. |
| Como calcular o custo-hora? | Salário dividido pelas horas úteis do mês, com encargos. Por perfil, em faixas, não por pessoa com precisão de minuto. |
| Preciso de timesheet perfeito? | Não. Precisa de atribuição consistente da maior parte das horas. Cobrir 80% de forma estável já ordena os contratos. |
| Minha equipe vai resistir ao apontamento? | Provavelmente, e com razão histórica. Reduza o esforço, declare o uso (dimensionar contrato, não avaliar pessoa) e devolva o resultado. |
| Por que preço por m² ou percentual concentra risco? | O preço acompanha área ou custo de obra; as horas acompanham mudança de escopo. A referência do CAU recomenda outra modalidade quando o escopo é incerto. |
| Como meço o cliente que “dá trabalho”? | Ciclos de revisão, reprotocolos e horas de sócio por contrato. Vira fato registrado, não acusação. |
| O que viabiliza a conversa de aditivo? | Escopo por etapa, aprovação formal datada, trilha de pedidos extras e horas por etapa contra o previsto. |
| Quando não vale a pena medir? | Quando você tem poucos contratos do mesmo tipo e ainda consegue responder de cabeça qual dá dinheiro. |
Próximo passo
O primeiro passo não é escolher sistema. É mapear onde o tempo do seu escritório está sendo gasto sem registro e definir o menor conjunto de dados que produz sinal: quais contratos entram, quais categorias de hora existem, como a hora de sócio é capturada e como o resultado volta para quem apontou.
Só depois vem a ferramenta — e ela é onde as horas por contrato passam a ter dono, com etapa, revisão e aprovação de cliente registradas no mesmo lugar. Se quiser ver esse formato na prática, dá para montar um piloto gratuito no ClickUp com um único contrato e as categorias de hora deste artigo, antes de decidir qualquer coisa.
A Audatia é consultoria de tecnologia para operação e desenha isso junto com o escritório — a escolha da plataforma vem depois do desenho, nunca antes, e somos parceiros de ClickUp e monday.com. Se você toca um escritório de engenharia ou arquitetura, a página de gestão para escritórios de engenharia e arquitetura reúne como estruturamos etapa, revisão, aprovação de cliente e horas por contrato, e o desenho começa em consultoria.
Fontes
- Tabela de Honorários de Serviços de Arquitetura e Urbanismo do Brasil — CAU/BR e CEAU (Resolução CAU/BR nº 64/2013), Módulo I — fórmula do preço de venda, definição de ET como custo direto das horas da equipe técnica permanente, composição do multiplicador K1, as duas modalidades de remuneração e o trecho sobre honorários de referência.
- Roteiro de Preços de Estudos e Projetos — Sinaenco — separação entre custos diretos e indiretos e o método de cálculo do custo horário (salário mensal dividido pela média mensal de horas trabalhadas).
*Os valores da tabela comparativa são ilustrativos e existem apenas para demonstrar o mecanismo de alocação. As referências do CAU/BR e do Sinaenco são de honorários e método, não de preço de mercado. Classificação contábil e apuração fiscal são atribuições do seu contador.
