Revisão: Gustavo Chagas, especialista comercial da Audatia · atualizado em 18 de agosto de 2026
Quase todo escritório de arquitetura ou engenharia sabe exatamente quanto faturou em cada contrato. Quase nenhum sabe quanto cada contrato custou. A diferença entre esses dois números é a rentabilidade por contrato — e ela não aparece em lugar nenhum, porque o custo principal de um escritório de projetos é tempo de gente, e tempo de gente não emite nota. A conta existe e é conhecida: a própria Tabela de Honorários de Serviços de Arquitetura e Urbanismo, publicada pelo CAU/BR com o CEAU, calcula o preço a partir da fórmula PV = (ET x K1) + (CE x K2) + (AT x K3) + (DD x K4), onde ET é o “preço do custo direto estimado das horas da equipe técnica permanente” e K1 é o multiplicador que incorpora encargos sociais, despesas indiretas, lucro e despesas legais. Ou seja: o padrão de referência do setor precifica projeto em horas. O que a maioria dos escritórios não faz é fechar o ciclo — estimar em horas na proposta e depois medir as horas que de fato foram gastas. Sem esse segundo passo, o escritório precifica com um método e apura resultado com outro.
Por que “o escritório fechou o mês no azul” não diz nada sobre qual contrato pagou qual?
Porque o resultado do mês é uma soma. Somas escondem sinais opostos.
Um escritório com dez contratos ativos e resultado positivo pode ter três contratos que sustentam o caixa, cinco que empatam e dois que consomem tempo de equipe sem cobrir o próprio custo. O agregado fica azul. A composição fica invisível. O sócio conclui que o modelo funciona quando, na prática, um número pequeno de contratos está subsidiando o restante.
O problema piora com o tempo. Sem visão por contrato, o escritório repete o que parece ter dado certo. Fecha mais contratos do tipo que consome mais hora, porque foram os que entraram mais fácil. O resultado agregado vai se estreitando, e a explicação que sobra é genérica: “o mercado apertou”.
Também há um efeito de fluxo de caixa que confunde. Contratos de projeto costumam ter pagamento por etapa, com entrada. O dinheiro entra antes do custo aparecer, porque o custo aparece como salário ao longo dos meses de desenvolvimento. Um mês pode fechar bem porque três entradas caíram juntas — e não porque os contratos são rentáveis.
Faturamento é um fato. Custo por contrato é uma alocação. Sem alocação, não há rentabilidade por contrato — há apenas uma média que ninguém consegue interpretar.
O que conta como custo de um contrato — e o que ninguém aloca?
Alguns custos são fáceis: aparecem numa nota, num boleto, num contrato de terceiro. Outros são tempo de pessoas que já estão na folha, e por isso passam despercebidos — eles já foram pagos de qualquer forma, então não parecem “custo do contrato”.
O Roteiro de Preços de Estudos e Projetos do Sinaenco separa os dois grupos com clareza. Custos diretos são “relativos aos recursos despendidos exclusivamente para a execução do trabalho”. Custos indiretos, “apesar de indispensáveis para viabilizar a execução dos trabalhos, nem sempre são diretamente vinculados ao trabalho em questão”.
| Custos visíveis (o escritório já vê) | Custos que quase ninguém aloca ao contrato |
|---|---|
| Consultores externos e projetos complementares | Hora de sócio em reunião, revisão e decisão de projeto |
| Taxas de aprovação, ART/RRT, cópias e plotagens | Retrabalho de revisão após mudança de premissa do cliente |
| Deslocamento e visita técnica lançada como despesa | Reunião de alinhamento interno sobre um contrato específico |
| Serviços de apoio técnico (levantamento, sondagem, maquete) | Tempo de acompanhamento e reprotocolo em prefeitura |
| Software e licenças (rateados no escritório todo) | Atendimento fora do escopo por WhatsApp e telefone |
| Folha da equipe técnica (vista como custo fixo) | Espera: horas paradas aguardando resposta ou aprovação do cliente |
A coluna da direita é onde a rentabilidade se decide. Hora de sócio é o item mais caro do escritório e o menos registrado — normalmente porque o sócio é quem menos tem tempo de registrar. Retrabalho de revisão é o segundo: ele não aparece como uma linha grande em lugar nenhum, aparece diluído em duas semanas a mais de prancheta que ninguém contou.
Tempo de aprovação em órgão público merece atenção separada. A espera em si não custa hora. O que custa hora é o acompanhamento: refazer o protocolo, responder exigência, remontar prancha para atender critério do analista. Esse ciclo pode se repetir várias vezes num contrato e nenhuma vez em outro, e é justamente o tipo de variação que a média mensal apaga.
Como calcular o custo-hora sem virar exercício contábil?
Existe um método simples e público. O Sinaenco descreve assim: “os custos horários destes profissionais podem ser obtidos com a divisão do salário mensal recebido pela quantidade média mensal de horas trabalhadas pela empresa”.
Essa é a base. Sobre ela se aplicam os encargos e, se o escritório quiser chegar a preço e não só a custo, os multiplicadores de despesas indiretas, lucro e tributos — exatamente como a lógica do K1 da tabela do CAU/BR.
Para medir rentabilidade por contrato, dois níveis já resolvem:
Nível 1 — custo direto de equipe. Salário mais encargos, dividido pelas horas úteis do mês. Serve para comparar contratos entre si. Responde “este contrato pagou as horas que consumiu?”.
Nível 2 — custo com rateio de estrutura. O mesmo custo-hora, acrescido do rateio de despesas indiretas. Responde “este contrato ajudou a pagar a estrutura?”.
Comece pelo Nível 1. Ele é suficiente para ranquear contratos e não exige nenhuma decisão de critério contábil. Não use três casas decimais. Use faixas por perfil — sócio, coordenador, projetista pleno, estagiário. Um custo-hora aproximado por perfil, aplicado de forma consistente, produz comparação útil. Um custo-hora exato por pessoa, que ninguém mantém atualizado, não produz nada.
Vale uma ressalva de escopo: a Audatia é consultoria de tecnologia para operação. O que descrevemos aqui é medição operacional. Classificação contábil, apuração fiscal e política de preço são temas do seu contador e da sua governança societária, não deste artigo.
E se a minha equipe não quiser apontar hora?
Essa é a objeção mais comum, e ela é legítima. Apontamento de horas tem histórico ruim: virou instrumento de vigilância em muitos lugares, consome tempo produtivo, e frequentemente a equipe preenche sem receber nada em troca. Quem já foi cobrado por um timesheet que ninguém usava tem razão em resistir.
A resistência costuma diminuir quando três coisas mudam.
Primeira: reduzir o custo de apontar. Apontamento diário em blocos, não em minutos. Poucas categorias. Se preencher leva mais de um ou dois minutos por dia, a adesão cai e o dado apodrece.
Segunda: mudar o uso declarado. O apontamento serve para dimensionar contrato e negociar prazo com cliente, não para medir o rendimento individual de ninguém. Isso precisa ser dito explicitamente e, principalmente, precisa ser verdade. Um único uso do dado numa avaliação individual encerra a colaboração.
Terceira: devolver o resultado. Se o time aponta e nunca vê o número, o apontamento morre em seis semanas. Mostrar, no fechamento de uma etapa, quantas horas ela consumiu contra o previsto é o que sustenta o hábito.
Também vale dizer o que não é necessário. Você não precisa de timesheet perfeito para ter sinal útil. Precisa de atribuição consistente da maior parte das horas ao contrato certo. Um apontamento que cobre 80% das horas, feito da mesma forma todo mês, já ordena os contratos do mais para o menos rentável — e a ordem é a informação que muda decisão. Precisão de minuto não muda decisão nenhuma.
Por onde começar quando ninguém aponta hora hoje?
Comece por um recorte, não pelo escritório inteiro.
- Escolha de três a cinco contratos ativos, de tipos diferentes. Inclua um que todo mundo suspeita ser problemático.
- Defina de quatro a seis categorias de tempo por contrato: desenvolvimento, revisão e retrabalho, reunião com cliente, aprovação e órgão público, coordenação de complementares. Menos categorias, mais adesão.
- Inclua a hora de sócio desde o primeiro dia. É o custo-hora mais alto e o mais volátil entre contratos. Se ficar de fora, o exercício mede o barato e ignora o caro.
- Rode um ciclo suficiente para pegar mais de uma etapa. Um recorte curto demais pega apenas um trecho do projeto e engana.
- Feche a conta por contrato: honorário no período, menos custos diretos externos, menos horas apontadas multiplicadas pelo custo-hora do perfil.
- Compare os contratos entre si, não contra uma meta. Na primeira rodada, o dado é bruto demais para virar meta. Serve para ordenar.
O objetivo da primeira rodada não é chegar ao número certo. É descobrir se a ordem dos contratos surpreende alguém. Se surpreender, o escritório vinha decidindo sem informação — e agora tem por onde continuar.
Por que contrato por m² ou por percentual da obra concentra o risco de escopo no escritório?
Porque o preço fica preso a uma variável que não é o custo. Área construída não muda quando o cliente pede a quarta versão da fachada. Custo estimado de obra não muda quando a prefeitura exige um novo estudo. As horas mudam. O honorário, não.
Isso não torna a modalidade errada. Ela é reconhecida e usada. A própria tabela do CAU/BR traz o percentual sobre o custo estimado de execução da obra como uma de duas modalidades básicas — mas condiciona a escolha ao grau de definição do escopo, indicando que a segunda modalidade é “recomendada para serviços de escopo não claramente definido ou não passíveis de prévia e precisa quantificação”.
O documento é explícito sobre seu próprio alcance:
“Os parâmetros aqui adotados objetivam, portanto, sugerir honorários de referência. Não têm a pretensão de substituir a inarredável formação de preços, porque num orçamento criterioso, o BDI (benefícios e despesas indiretas) peculiar do serviço é ponderado em relação à conjuntura econômica, à capacidade de produção, ao potencial criativo e à capacidade administrativa de cada empresa ou profissional, dentre outros fatores.”
— Tabela de Honorários de Serviços de Arquitetura e Urbanismo do Brasil, Módulo I — CAU/BR e CEAU
Leia a última parte com atenção: “capacidade de produção” e “capacidade administrativa de cada empresa”. A referência oficial diz que o preço depende de características do seu escritório. Você só conhece a sua capacidade de produção se mediu quantas horas os seus contratos realmente consomem.
Como transformar “esse cliente dá trabalho” em número?
Todo escritório tem essa frase. Ela costuma estar certa e não serve para nada, porque não entra em negociação nem em decisão de portfólio. Vira número quando o tempo passa a ter dono.
O exemplo abaixo é ilustrativo. Os valores são hipotéticos e existem apenas para mostrar o mecanismo.
| Exemplo ilustrativo | Contrato A | Contrato B |
|---|---|---|
| Honorário contratado | R$ 120.000 | R$ 120.000 |
| Visão sem alocação de horas | “Dois contratos iguais” | “Dois contratos iguais” |
| Horas de equipe técnica apontadas | 620 h | 950 h |
| Horas de sócio apontadas | 40 h | 180 h |
| Ciclos de revisão após aprovação de etapa | 2 | 7 |
| Reprotocolos em órgão público | 1 | 4 |
| Custo direto externo | R$ 18.000 | R$ 22.000 |
| Custo de equipe (custo-hora ilustrativo por perfil) | R$ 62.000 | R$ 118.000 |
| Resultado após custos diretos | R$ 40.000 | – R$ 20.000 |
Sem alocação de horas, os dois contratos aparecem como a mesma linha de R$ 120.000 no faturamento. Com alocação, eles são coisas opostas. E note onde a diferença se formou: não no honorário, não nos complementares. Nos ciclos de revisão e nas 140 horas adicionais de sócio.
Esse é o formato que sustenta uma conversa comercial. “Você dá trabalho” é acusação. “Este contrato teve sete ciclos de revisão contra dois do padrão, e quatro reprotocolos” é fato registrado, e leva a três caminhos: rever o preço na renovação, rever o processo de aprovação de etapa, ou aceitar conscientemente o contrato como estratégico. Qualquer um dos três é melhor do que decidir sem saber.
O que precisa estar registrado para a conversa de aditivo existir?
A conversa de escopo adicional é quase sempre perdida antes de começar — não por má-fé do cliente, mas por ausência de registro. Meses depois, o escritório afirma que houve mudança relevante e o cliente lembra de uma conversa por telefone. Sem documento, prevalece a versão de quem paga.
Quatro registros sustentam essa conversa:
- Escopo por etapa, com número de revisões incluídas. “Revisões ilimitadas até aprovação” é o mecanismo mais comum de erosão silenciosa de margem.
- Marco de aprovação formal de cada etapa, com data e responsável.
- Trilha das solicitações fora de escopo, com data, origem e horas consequentes. Não para cobrar tudo. Para poder escolher o que cobrar.
- Horas consumidas por etapa contra o previsto. É o que converte “mudou bastante” em “esta etapa consumiu o dobro das horas previstas”.
Registro serve tanto para cobrar quanto para não cobrar. Um escritório que documenta e conscientemente absorve um extra está fazendo uma concessão comercial. Um escritório que não documenta está absorvendo sem saber.
Resumo
| Pergunta | Resposta curta |
|---|---|
| Por que o resultado mensal não basta? | É uma soma. Contratos rentáveis e deficitários se anulam. |
| Qual é o custo principal de um contrato de projeto? | Tempo de gente. Não emite nota, então não aparece por contrato. |
| Quais custos quase nunca são alocados? | Hora de sócio, retrabalho de revisão, reunião de alinhamento, acompanhamento de aprovação. |
| Como calcular custo-hora? | Salário dividido pelas horas úteis do mês, com encargos. Por perfil, em faixas. |
| Preciso de timesheet perfeito? | Não. Precisa de atribuição consistente da maior parte das horas. |
| Minha equipe vai resistir? | Provavelmente sim, e com razão histórica. Reduza o esforço, declare o uso e devolva o resultado. |
| Por que por m² ou percentual concentra risco? | O preço acompanha área ou custo de obra. As horas acompanham mudança de escopo. |
| Como medir o cliente que “dá trabalho”? | Ciclos de revisão, reprotocolos e horas de sócio por contrato. |
| O que viabiliza a conversa de aditivo? | Escopo por etapa, aprovação formal datada, trilha de pedidos extras e horas por etapa. |
Quer saber quais dos seus contratos você não consegue medir hoje?
O primeiro passo não é escolher sistema. É mapear onde o tempo do seu escritório está sendo gasto sem registro e definir o menor conjunto de dados que produz sinal — quais contratos entram, quais categorias de hora existem, como a hora de sócio é capturada, e como o resultado volta para a equipe que apontou.
A Audatia é consultoria de tecnologia para operação e trabalha esse desenho junto com o escritório. Somos parceiros ClickUp e monday.com, e a escolha da plataforma vem depois do desenho — nunca antes.
Escritório de engenharia ou arquitetura? A página gestão para escritórios de engenharia e arquitetura reúne como a Audatia estrutura etapas, revisão, aprovação de cliente e horas por contrato.


